quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A História aos meus olhos e a cidade concreta.

Desde que entrei na faculdade de História estreitei minhas conversas com Alberto Lima, um jornalista grande amigo de meu pai e que agora concede parte de seu tempo em reflexões sobre a vida via e-mail comigo. Ele é um cara muito bacana, atencioso, gosta de dar carinho, de entusiasmar o amigo, é crítico quando preciso, infelizmente torce pelo Náutico, mas, em contrapartida, é casado com Carol, uma brasiliense arretada, gente fina, mãe exemplar do João e do Pedro, que tem um faro fino pra coisas boas dessa vida.

Entre um e-mail e outro, Alberto soltou a possibilidade de uma visita a Brasília. E lá fui eu, pela primeira vez viajando num TAM que balançou mais que o balança mas não cai dos Aflitos em dia de clássico das emoções. Ao chegar ao aeroporto JK, cheirei aquele clima de Brasília pra renovar o pulmão, estiquei os braços e as pernas e fui expresso dá uma fuçada na cidade antes de encontrar com Alberto e Carol. Em segredo, queria mesmo adentrar em Brasília e ver como funcionava o centro do poder do meu país.

Acabei descobrindo outras belezas e outras faces de Brasília. A princípio, me assustei um pouco. Fui motivado pela posse e caía uma chuva desagradável. Ela poderia afogar os meus planos de ver a Dilma enrolada na faixa verde e amarela. O taxista que me encaminhou nas longas avenidas do DF apontou o seu termômetro social para a posse e alfinetou: “Pelo jeito, ela não vai desfilar em carro aberto”, disse o motorista um tanto silencioso, que só respondia o necessário. E era somente o necessário que se ouvia até então. O táxi, o jornaleiro, o rapaz do hotel, meu vizinho de quarto falavam apenas o essencial.

Cheguei ao Hotel às 10h do dia 31. Me organizei e abri a varanda que dava para o Congresso Federal. Linda paisagem. Um verde liso contrastava com o concreto dos altos prédios do plano piloto. Passei rapidamente num shopping e vi o quanto rigorosos com o trânsito eles são. Os carros passavam a 100km/h e o pedestre, pacientemente, espera o sinal fechar, e sempre na faixa. Na fila do restaurante do shopping percebi que as mulheres têm o mesmo tom de voz: algo aberto, efusivo e engraçado. Mas era lindo o tom da voz.

Essa dureza Brasiliense é histórica. Em cinco décadas de existência, o DF é habitado por muita gente de fora. Não há aquele bairrismo, um apego fraterno como nós temos com o Recife. Apesar de andar bastante para tirar fotos da noite do Réveillon, meu objetivo máximo era o dia primeiro, a posse da primeira mulher presidente. No dia 31, não me prolonguei nos assuntos etílicos e me guardei para agüentar o rojão do dia seguinte. Rolou um baita festão na casa dos pais da Carol. Preferi o descanso e encontrá-los no outro dia, na posse.

O tempo me deu um drible daqueles. Me acordou com chuva e, no meio do caminho, me deu um abraço caloroso. Um sol repentino apareceu e me queimou todo enquanto registrava a diversidade de gente que chegava à Esplanada dos Ministérios, para ver Dilma empossada. Foi lindo aquele vermelhidão petista. Cada um com sua bandeira, boné, camisa, mas, sobretudo, todos carregavam uma esperança.

Já próximo do Congresso, a organização do evento promoveu um encontro de culturas, uma coisa linda. Cinco tendas representando as regiões brasileiras. Uma comunhão de expressões artísticas deslumbrante. Mais adiante um pouco, quando meu relógio marcava 14h, eu já estava sentadinho nas rampas do Congresso esperando Dilma no Rolls Royce, que foi doado pela Rainha Elizabeth. O sol me torrava, mas eu desconfiava da chuva. Olhava assim para o horizonte e via aquelas nuvens pretas se aproximando. O Rádio me avisou categórico: “Dilma sai da Granja do torto e vem desfilando em carro fechado em virtude das fortes chuvas em Brasília”.Era só o que me faltava, e não faltou. Tomei um baita banho e, na descida do Congresso, não vi o xauzinho da presidenta. Não desisti.

Peguei a tangente do Congresso e caí na praça dos três poderes. A chuva deu uma trégua, mas ficou intimidando o sol. Ficou aquele mormaço tabacudo, que nem esfria e nem esquenta. Mas a cerimônia ficou mais confortável. Tinha um telão na praça. Deu pra ver e ouvir o primeiro discurso de Dilma como Presidente da República Federativa do Brasil. “Erradicar a miséria, proteger os mais frágeis e desenvolver o Brasil”. Boa essa parte, mas melhor ainda foi quando ela engasgou e chorou lembrando-se de seus companheiros que tombaram na Guerrilha porque tinham um sonho para o Brasil. Ponto para Dilma e muita emoção pra mim. Somente nessa parte ela ganhou o mandato. Teremos uma governante de sonhos, e não só de metas.

Embora técnico e demorado, Dilma fez um discurso razoável. Mais instigante ainda foram os atos em silêncio. O Alberto lembrou bem a cena mais interessante do dia, quando ela saiu do Congresso e o representante das forças armadas prestou continência à Dilminha. Me emocionei todo quando vi e mais ainda quando o Beto me lembrou, daquele jeito dele, cuidadoso com as palavras. Aquela cena me marcou de forma indescritível. Imaginem: é uma ex-guerrilheira, que foi estupidamente torturada pelos militares nos anos 60 e 70, reconhecida como a maior autoridade do país pelos mesmos fardados que a atormentaram no passado. A memória histórica é fenomenal. Naquele momento eu tive a sensação de que a História estava aos meus olhos e me emocionei verdadeiramente. Em poucas palavras, foi lindo.

À noitinha, mesmo cansado, fui à casa de um casal pernambucano que é super amigo do Alberto e da Carol, que são duas pessoas sensacionais. Ao chegar lá, uma conversa bem pernambucana misturada com Brasília. Pessoas legais, conversas fluentes. As histórias longas e interessantes do Alberto, a atenção, preocupação e paixão da Carol em nos inserir no contexto de Brasília, os palpites dos amigos deles sobre política, economia em dia de posse, um macarrão com carne moída que achei maravilhoso e, por fim, um sono arrebatador sobre os livros do Chico Buarque – presentes da viagem – depois de um dia histórico, em todos os momentos.

E Brasília é linda, basta conhecê-la mais pacientemente. Ela guarda com carinho seu povo, acolhe em silêncio. Na minha mente, Brasília é um lugar amigo, de paz, suave, mas que pouco se sabe Brasil afora. Foi muito bom estar lá, nesse momento tão importante para História do Brasil. Não podia ficar em silêncio diante da beleza e do carinho.

Para Alberto e Carol, João e Pedro, amigos que me acolheram carinhosamente em Brasília.


Por Afonso Bezerra

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Onde a globalização é figurante

A verdade é que toda vez que começo um novo texto, caio no poço da cidade grande em que moro. Falar sobre o quê? Sempre as mesmas caras, sempre os mesmos itinerários: carros carros carros carros carros pessoas pessoas carros acidentes mortes carros carros carros. É preciso dar um basta nessa condição de metrópole. Vamos deixar a metrópole e suas mesmices para os que, como eu antes de fechar a janela e ouvir o silêncio, ainda não descobriram o abismo em que estão.

Uma vez, fiz uma viagem. Na verdade, um passeio, já que meu destino era uma cidadezinha chamada Lagoa do Carro (nome bem irônico, aliás), no interior de Pernambuco, a pouco mais de uma hora de Recife. Ao chegar na cidade, encontramos um senhor de idade, cujo nome não me lembro, dono do terreno ao qual estávamos indo. Aparentava ter, no mínimo, 70 anos. E enquanto nós, meros mortais submissos à tecnologia, estávamos enfiados dentro de um carro com ar-condicionado para fugir do sol das onze horas, o homem foi até o terreno de uma forma simples e rápida: a cavalo.

O lugar era longe, a estrada de terra batida era desigual, o homem a cavalo estava muito à nossa frente. Eram várias porteiras de madeira – ele abria e fechava cada uma delas sem nem descer do bicho – e muitas montanhas, mas conseguimos chegar ainda a carro (Amém. Ar condicionado!) na casinha de pau-a-pique onde o senhor morava. A composição da casa era o mais simples possível: um banheiro, uma cozinha, um quarto, uma sala. Um fogão, uma geladeira, uma cama, uma televisão e um som. Sofá? Quem precisa de sofá quando existem redes? Supermercado? A alimentação saudável estava toda lá fora, nas plantações. Água encanada? Havia a nascente de um rio a poucos metros da casa.

Me espantou o fato de que a artificialidade de um mundo tão tecnológico, tão científico, tão encolhido pela globalização, por assim dizer, não afetou aquelas pessoas. É uma vida tão simples, tão tranqüila. O conforto deixa a desejar, obviamente, levando em conta o padrão de vida da cidade grande. Mas a simplicidade – ou mais: a felicidade – estampada nos olhos daquele povo é conforto de sobra pro coração.

(Penélope Araújo)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Como explicar o medo aos meus filhos?

Antes de qualquer coisa, gostaria de informar que não tenho filhos, mas pretendo tê-los. Acho linda essa experiência, apesar de todos os dramas que dela fazem parte. A criação de um ser humano buscando sempre ensiná-lo a liberdade, os conceitos, a vida em sua visão ampla (apesar de ser no seu humilde ponto de vista) é uma sensação mágica.

Sempre que penso sobre alguma coisa indelicada, me pergunto como explicaria aos meus filhos. Essa relação paterna de ser a máxima referência é um exercício contínuo sobre a formação de seu próprio caráter, afinal de contas, outra pessoa tomará essas posições como uma verdade absoluta, nos levará a sério e, por eles, vale a pena pensar um pouco mais.

O tema da vez é o medo. Me cansei das definições do Datena sobre o que seria o medo. Elas são sensacionalistas demais. O significado de medo dado pelos meus colunistas preferidos das minhas revistas preferidas viajou demais na retórica, não gostei. Todos são categóricos, inflamados, apressados e sempre buscam um herói que supera a idéia de medo. E para formar esse padrão heróico anti-medo, nos ensinam uma fórmula infalível de como se livrar das agruras modernas. Nada. Sinto-me preso com tantos códigos: de conduta, eleitoral, civil, condominial... Chega!

Foi um francês quem me trouxe um esclarecimento sobre o medo. Ele, simplesmente, existe. Causa-nos angústia, respirações aceleradas, o pensamento pifa e a racionalidade (tão defendida ultimamente) se esfarela como a farofa que sobrou do almoço. Jean Delumeau já me disse: todas as sociedades tiveram medo e, paralelamente, construíram seus heróis. Mais adiante, ele complementa dizendo que há uma diferença entre medo e covardia.

Ser medroso é um ato, por si só, heróico. É reconhecer suas limitações, ser verdadeiro consigo mesmo. O medo nos ensina a não criar personagens sobre a nossa personalidade tão frágil. Mas a condição humana tem dessas coisas: gosta de impor certas aptidões, de nos enlouquecer. E a nossa sociedade que Duby chamou de espetacular vai querer nos apresentar como o resistente ao medo e conhecedor puro de todos os dramas, ou seja, nos faz covardes para nós mesmos. Porque covardia é isso: fingir-se a si mesmo, tropeçar em suas verdades ao tentar construir mentiras para aparentar-se melhor ao mundo lá fora.

Numa era movida ao terrorismo, apresentar-se imune ao medo é um sinal de boa relação com os próprios dramas. Entretanto, o que gostaria de passar ao meu filho é o seguinte: esqueça os outros e sinta o seu medo e faça com que ele seja reconhecido e respeitado.

Não ultrapasse seus limites, não queira sentir seu superego. Encare o inusitado, faça o simples e preze por sua autonomia. No fundo, você verá que ela é muito cara. Muito. A ponto de não ser mensurada financeiramente. E quero contar mais ainda ao meu filho: que tenho medo de sapo, de viajar de avião, de não achar o caminho certo nas ruas do Recife e ver meu filho perdido por causa do medo do medo que ele tem.


Por Afonso Bezerra.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Como se fosse fevereiro.

A banda no meio do percurso atacou de “Deixa o frevo rolar, eu só quero saber...” e todos foram aos gritos, naquele empurra – empurra natural do carnaval. Eu estava fantasiado de Bobo da corte e me infiltrei na alegria do Recife para espantar o banzo do fim do casamento. Muita cerveja, muita dor de cotovelo, conversas afogadas e nada de a dor passar. Ela apenas despertava mais tarde no outro dia por causa da ressaca.

Na terça-feira de carnaval, bem dizer o último dia da folia de momo no Recife, eu acordei com uma tremenda dor de cabeça. O despertador apitava alto, minha vista embaçada se perdia sem os óculos. Quanto mais eu me esticava para desligar o som irritante, mais tensa era dor na cabeça. Consegui abrir a vista em frente ao espelho e vi que em meu rosto estava a marca de que eu havia me rendido às dores da solidão. Tomei um café forte e fui me certificar se hoje alguém iria pular carnaval na cidade.

O João estava viajando. A Neide, secretária da empresa, resolveu brincar em Olinda durante o dia e provavelmente vai chegar entregue no final da tarde. Marcelo e a esposa vão brincar, mas estão felizes com o casório, eu não iria estragar uma lua de mel tão alegre. Até porque o casamento que supera o carnaval está fadado ao “felizes para sempre”. Sorri em frente ao espelho e vi que minha sagacidade estava um pouco além do normal. Tudo que fosse em relação ao casamento, eu destilava um veneno raivoso.

O tempo passou e as orquestras, algumas pequenas, outras irritantes, já afinavam o tom na Avenida. Abri a janela da varanda que dava para o Recife Antigo e, de longe, observava o folião chegando ao Recife, se apertando na Guararapes e se entregando ao passo nas ruas antigas do Bairro do Recife. Tinha um José de bermuda que se encantava com a festa. O Mário, que é aposentado, gastando o dinheiro da aposentadoria como vingança da empresa. A Janete, a empregada doméstica de Boa Viagem, enchia a cara de cachaça como se afogasse a alienação do trabalho e a exaustão do serviço que lhe consumia. As três virgens moças estreavam a liberdade no carnaval do Recife e pulavam de mãos dadas atraindo olhares dos homens que passavam como se fossem grandes vedetes. E eu da varanda, no décimo andar, guardando a dor do fim podendo fazer um recomeço.

Vesti uma camisa, pus uma bermuda como o José, peguei um dinheiro igual ao que o Mário gastava e saí alegre como a Janete, embevecido como as três virgens moças. Parti como se aquilo fosse novidade. O vento do Recife batia no meu focinho, como se espantasse a solidão, enquanto eu atravessava a ponte Maurício de Nassau. A Mauricéia Desvairada estava sorridente com suas fantasias, as pontes vestidas de um colorido marcante e o povo coberto de euforia como um anfitrião se embeleza ao visitante. No meio da rua do Bom Jesus, a orquestra atacou de “Deixa o frevo rolar, eu só quero saber...” e eu enlouqueci. Pulei, dancei e deixei de lado os dedinhos e abri a dobradiça no meio multidão como se a rua fosse o meu palco. E fui junto com o povo, marcando a cadência do frevo no arrastado do chinelo. Era Vassourinhas, Hino do Elefante, Madeira do Rosarinho. Cantava todos os frevos como se fosse a música dos meus sonhos, da minha vida.

As ruas iam passando, o bloco me arrastava e eu ia me encantando. Não tinha medo de me perder porque sou como o poeta Samarone já dizia: "Recife - cidade que reconheço somente passando as mãos pelas paredes." Assim, fui tateando os bares, as ruas, o povo.

Na minha frente, uma moça fotografava o bloco como se fosse o último e como a terça fosse acabar ali, naquele instante. Mas sua alegria era tanta que contagiou a todos. Cada clique era uma festa. Depois ela parou, guardou a máquina e ficou na minha frente pulando freneticamente ao som do frevo. De repente, a orquestra atacou de “Olha que eu conheço essa cara...” e todos se apertaram na curva com a Praça do Arsenal.

Ela ficou bem na minha frente. Vez ou outra me olhava, me sorria e se desculpava dos pisões. Eu nem desculpava, agradecia. Diante daquela beleza me deitaria como se fosse um pano de chão ou uma asfaltada avenida, pra que ela pudesse frevar. O cheiro do cabelo dela me encantava e assim eu ia até as estrelas de felicidade. O carnaval era radiante.

Quando estávamos fazendo a segunda volta na Praça do Arsenal, comecei a conversar com ela me utilizando da letra da canção. “Vem comigo e toma a chave do meu coração, porque eu já entrei no clima. Deixa eu sair no teu bloco, me abraça e me beija, me faça feliz”. Nesse meio termo de cantadas e frases plagiadas, a orquestra aumentou o som falando do sol, da praça, do amor, da saudade e eu não resisti e dei-lhe um forte abraço. Ela segurou na minha mão, me sorriu e continuou cantando frevo. Apressei meu passo para seguir junto ao seu corpo como se fosse namorado. No final do bloco, a beijei como se fosse amante, com uma alegria como se fosse fevereiro.

Sentamos no marco zero e o vento balançava seus cabelos. Fazia um frio como se fosse agosto. Continuei beijando-a intensamente, esquentando seu corpo no meu. O dia foi nascendo e o sol nos clareando como se fossemos artistas e o marco zero um grande palco. Com o dia já de pé, fomos dormir como se fossemos casados e acordamos como se tivessemos esquecido que a dor da separação havia doído. O frevo nos trouxe de volta para o grande amor.


Por Afonso Bezerra.

A política é a prática da solidão.

Assim como na literatura, a vida tem suas dualidades. Entre a ficção e a realidade, construímos uma frágil idéia de viver. Diariamente convivemos desconfiadamente entre a imaginação e a angustiante realidade. Do lado imaginário, descansa a formosa política, lúdica e retórica, sem cansaço e repleta de sonhos. Do outro, padece a realidade. A pressão, a ardente ausência de esperança e o imperativo mundo real.

Essa realidade presente é construída diariamente nas pequenas atitudes do cotidiano. De um simples ver Televisão ao enfadonho percurso casa-trabalho, enjaulado nos péssimos transportes coletivos e públicos, são as evidentes marcas de um mundo real nunca interligado ao imaginário político porque, no fundo, não é coerente com a prática de ambos os lados.

A política é a dama formosa dos dias raros. Aparece de vez em quando, tem um jeito manso, adequado, nunca com pressa. Tem na ponta da língua as palavras certas para acalentar um coração mordido, dolorido e perdido. A política é a contraditória arte da possibilidade do impossível.

A Realidade é o desalento, é o ao vivo e inesperado. A dor crua e nua. É a vida seca num plural Graciliano, rachada e grande, desesperada e apressada. É aquela que se reveste de impureza por desconhecer o puro do viver. Realidade é o atropelo de si mesmo daquele que não se conhece.

O que espanta a relação entre esse dois pólos é que ambos dependem um do outro. Aristóteles, filósofo da Grécia, já escrevia um recado para esse nosso mundo: “o homem é um animal político”. Mas que homem é esse que tem política como essência de si? De um lado, aquele do mundo real, não reconhece a política como solução. Do outro, a aquele da contemplação, a política é apenas um recurso de promoção pessoal.

Ela tornou-se, exclusivamente, um instrumento para a construção das positivistas biografias excepcionais, que regurgitam orações do tipo “um grande homem, que vai deixar uma lacuna impreenchível na vida desse país”. País sem habitantes, só pode. Porque quem faz esse país continental, não se reconhece na política. Ver-se à margem, escondido, anulado. Aliás, nem tanto. O homem real tem sua função na política: é um grande adjetivo para os auto-consagrados grandes homens. Enquanto isso, nem sabem que triunfam nas linhas dos livros biográficos. Apenas procuram uma saída, um escape em sua dura vida real. Afinal, a política, o que é a política? Um momento festivo e emocionante de discussões superficiais? Um processo eleitoral?

Joaquim Nabuco disse, em “Minha formação”, que fazia política de P maiúsculo. É uma possível resposta, mas no desandar das carruagens da Dilma, a eventual composição do seu ministério, tumultuada por natureza, nos força a definir que Política é a prática da solidão. Não se pensam projetos e idéias, e sim interesses particulares, construção de melhorias de vidas, de grandes biografias e possibilidade de novos cargos. Uma política que esqueceu seu conteúdo, perdeu-se da ética e largou os princípios. Uma política minúscula e quase sem o P. Política que é cega para o real.

Enquanto ela se banha nas deletérias sujeiras de sua essência e esquecemos-nos da dureza real, aprendemos a chamar isso tudo de realidade, como cantaria Caetano. Basta abrir os jornais e entender como a política cada vez mais não se entende. A política não cabe no vernáculo, não tem tradução e só tem um sentido: a solidão, e nunca a solidariedade.