Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, já dizia o bom baiano Dorival Caymmi. A música já ironiza à história de seu próprio ritmo. Se ele hoje é um queridinho do Brasil e está na ponta do pé de qualquer turista, muito distante está de suas origens. O Brasil, hoje, é uma grande grife para o mundo. Não é difícil encontrar nossas cores estampadas no cotidiano de franceses, norte-americanos e ingleses, sem esconder um certo orgulho em vestir nossa bandeira. O salto de nossa economia elevou a cultura do exótico ao necessário, numa hipótese sacana de que, para os turistas, conhecer o Brasil virou sinônimo de se tornar um intelectual sem preconceitos. O samba é nosso cartão de visita, mas nem sempre foi tão doce assim ouvir Noel Rosa, Cartola ou Pixinguinha. Para muitos, esse samba tinha lá sua ponta de imodesto.
Suas origens datam da época da miscigenação entre negros africanos e portugueses, no período da colonização européia. Mas sua consagração como um ritmo foi um processo lento e iniciado nos anos 20 do século passado. Muito peculiar à cultura afro no Brasil, o samba era muito executado em rodas de candomblé, no centro carioca. Essas rodas eram protagonizadas por personagens descendentes de ex-escravos, que foram recém-libertos no final do século XIX. Habitantes negros, festas agitadas e barulhos de tambores não tinham nada a ver com a idéia de cultura civilizada defendida naquela época. A Belle Époque francesa imprimia um novo jeito de se portar.
Com a República recém-proclamada, havia a necessidade do Rio de Janeiro se portar como uma capital digna de uma refinada cultura, habitada por gente da mais requintada postura. Paris surgia como um grande espelho para a reforma na cidade fluminense.
Em 1905, durante o Governo de Rodrigues Alves, vieram abaixo as rodas de samba instaladas nos cortiços e casebres antigos do Centro do Rio de Janeiro, onde habitavam as famílias humildes, pobres e renegadas pelo Estado brasileiro, numa espécie de Reforma Social conjunta, que englobava desde os sistemas habitacionais até a política de valorização do café, passando pelo sistema de saúde. O progresso excluiu toda riqueza de história e arquitetura da capital à época, por um preço baixíssimo de se igualar à uma civilização que tem sua importância questionada. Era a cultura de um povo sendo afogada pelo interesse de se adequar a um status.
Além das habitações derrubadas, o samba, típica expressão cultural dessa classe de excluídos, foi censurado e acusado de ruído e música de péssima qualidade que promove a desordem. Logo, para a elite brasileira dos anos 20 e 30, quem gostava de samba, bom sujeito não era.
A polícia ficou encarregada de desafinar a nota de um bom sambista que ousasse entoar suas cantigas. Cada vez mais o samba ficou recluso ao morro, nova região dos antigos moradores do centro carioca, bem distante da sofisticação. Como se fosse uma forma de resposta, os sambistas começaram a se organizar, fundar escolas, dar cores próprias às suas comunidades que timidamente nasciam. Vila Isabel, Mangueira, Estácio de Sá, Oswaldo Cruz, cada uma tinha seu bamba, seus hinos, bandeiras e, a partir de agora, sua história.
Afinal, o que fez desse gênero tão perverso à ordem brasileira um símbolo nacional? A necessidade insaciável de encontrar uma identidade. Em 1922, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, o sociólogo Gilberto Freyre, os artistas e literatos do Modernismo brasileiro, preocupavam-se com que roupa o Brasil ia se vestir para comemorar os 100 anos de independência. Quem são nossos heróis? Qual é a nossa genuína arte? Quem contou a nossa história? E quem nos fez brasileiro?
Diante dessa ausência, nasceu a necessidade de proclamar o samba como ritmo nacional, porque ele estava entranhado daquilo que ergueu esse país. Trazia o batuque, a irreverência do negro e, de fato, a realidade de quem continuava a erguer esse país e ainda ocupava o posto dos oprimidos: o povo das ruas, dos morros. O rebolado das moças, o acelerado gingado do violão e a poesia que reverencia a vida como ela é (numa epifania nelsonrodriguiana) representam a sensação de uma verdade nacional.
Depois que sentimos a necessidade de se ter um ritmo só nosso, quem gosta de samba, com certeza um bom sujeito é. Mas será que ainda temos o reconhecimento de nossa identidade? Será que ainda preservamos a nossa história, nosso patrimônio? Somente sambando para entender.