terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sobre carta.

Remetente e destinatário são palavras que estão frequetemente presas ao meu vocabulário. Remeter algo com um destino amigo faz parte da minha vida de aspirante a escritor. "Mas ela é tua vizinha, pra que escrever uma carta?" foram palavras ditas por uma amiga minha, enquanto eu disse que estava indo deixar uma correspondência, ou melhor, uma carta na casa de outra amiga nossa e que, em poucos minutos, retornaria para a boa conversa.

Ela abriu os olhos, franziu a testa e me indagou de uma forma dura como se o critério fundamental para escrever aos bons amigos fosse estar a uma distância, de mais ou menos, alguns quilômetros. Mas pra mim não tem isso. Pode estar onde estiver, escrevo com maior prazer.

Tudo vira um belo motivo para uma boa carta. Bianca, minha amada amiga de grandes jornadas, deve ter um baú imenso cheio de cartas que escrevo pra ela. Mesmo ela morando ao meu lado, escrevo coisas confortantes, confissões, bilhetes carinhosos e um simples "Bom dia!". Costumo deixar essas cartas na casa dela às segundas. Quando a noite do domingo vai terminando, vou pisando de mansinho, respiro fundo e empurro a folhinha por entre as brechas da porta e o chão, e torço pra ela encontrar a cartinha lá, linda e bela esperando pelo seu acolhimento.

Tem as cartas que prometo e nunca chegam. Sou um irresponsável, nesse caso, e me faço de surdo à canção do Lenine que diz “escreveu remeta”. Minha cunhada viajou em Setembro para o exterior e eu falei baixinho no ouvido dela que iria escrever uma carta. Mas eu sinto aquela sensação estranha, a mão pesada, o peito dolorido. Era como se a saudade mandasse um aviso de “cedo demais”, “mantenha a calma”. Enquanto isso, segura as pontas, Carol.

Marília também é uma órfã de minhas amenidades em correspondência. Já perdi as contas de quantas vezes já anotei o endereço da Avenida Bultrins, que ela já mudou pra Chico Science, e nunca mandei nem um pacote de Big Big com as curiosidades nada curiosas. Mas vai chegar, Lila, tenha paciência com minhas leseiras.

Alberto Lima, cabra mais citado nesse blog, também é outro que gosto de trocar correspondência. Como ele mora em Paris, ainda não tive a audácia de enviar alguma coisa pra Champs Elysé. Vai que Sarkozy abre pra dá uma lida e descobre junto com Carla Bruni que Alberto é o cabra mais bacana de todo Recife, embaixador das amenidades e coisas pernambucanas em Paris. Deus o livre. Empunhai a bandeira de nossa confraria, Alberto, que um dia essa carta há de sentir o cheiro das cores verde e amarela tremulando em vossa mão na terra de Bonaparte.


Outra coisa que adoro fazer é emprestar livro. Mas livro é como remédio: precisa de uma bula para indicar como manipulá-lo. Por isso, quando vou emprestar um livro a alguém, como é o caso de Maria Paula – grande amiga estudante de Direito e estudante farrapeira de História - escrevo um bilhete-carta contando minhas sensações com o livro, o que eu absorvi de informação e o velho desejo de Boa leitura. Na situação de Paula eu tive a imensa honra de apresentar José Saramago, aquela alma branda, um poço de calma. Me senti extremamente orgulhoso quando ela disse “Obrigado, adorei o Saramago”. É quase que o mesmo tom de um “Adorei esse teu amigo.” É de arrepiar as lombrigas.

Esse cacoete de buscar uma caneta Bic e um pedaço de papel pautado da Tilibra eu peguei com Edu, um companheiro do movimento estudantil e que me mostrou a Bahia de Jorge Amado. Se não fosse aquela letrinha deitada, parecida com o itálico do Word, eu não entenderia as diversas faces da Bahia e do próprio Jorge Amado. Lembro que em meio a tantas declarações efusivas de admiração ao Baiano, havia uma reticência apontando que a melhor parte da obra dele era quando esteve sob tutela comunista. Edu é um homem de fortes ideais, amante da luta do povo e corajoso para com a luta. Escolheu pra vida o caminho cigano da revolução. Hoje exerce sua labuta em Alagoas, construindo passos por um Brasil melhor. Como ele mesmo costumava terminar, saudações revolucionárias, companheiro.

O que seria de mim e dessas pessoas sem uma carta? Ela, pra mim, não é o início, nem o fim. É o meio. É essa ponte entre uma alma e outra, erguida em pilares de sentimentos bons, humanos, de paz, suavidade, de inteligência franciscana. É inenarrável o bem que um pedaço de papel contendo algumas gotas de palavras confortantes faz ao coração solitário, numa tarde qualquer, em plena praça do Diário, ou em alguma repartição pública, envolvido em falsas cortesias e atividades diversas, ou em um ônibus lotado, quente e parado num engarrafamento.

É uma pena que as pessoas tenham em mente a pobre concepção de que carta é somente de amor. Não é tão somente "de amor". Existe aquela que mata uma saudade; a que nos enche de alegria logo cedo, de um amigo que mora ao lado, mas continua nos escrevendo; tem a do assunto sério de um irmão que mora longe; tem a carta repleta de verbos revoltados de um amigo que perdeu o emprego, ou brigou com a namorada; tem aquela carta que é mais um aviso: “amigo, escrevo pra dizer que chego em breve"; e tem as cartas que são "metacartas", aquelas se explicam por que chegaram ali e o porquê de terem sido feitas.

A estrutura de uma carta pra mim não tem estrutura. Ela tem que ser feita a gosto do escritor. Não há limites de linhas, nem de expressões a serem usadas. Quanto mais emocionante for, mais carta é. E a forma de fazer não exige nada de máquinas ou computadores: a velha canetinha bic, ou aquela de ponta fina, e tudo está no trilho certo de uma boa carta. O que importa muito mais é o que ela representa, e não o que ela é fisicamente. As cartas sempre tocam o nosso coração, independentemente da emoção da notícia que ela nos traz. Escrever carta é bom, melhor ainda é receber.

Por Afonso Bezerra.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Minha odisséia nos ônibus do Recife.

Andar de ônibus no Recife é uma Odisséia, é um plural de problema. A cidade é mal sinalizada, os ônibus são péssimos e a passagem cara pacas(2 Reais o Vale A, absurdo). os motoristas, em geral, são malcriados. Olhe, só andando!

Teve uma vez que, por motivos de leseira, eu demorei pra chegar até a porta e o motorista arrancou o carro achando que eu não iria subir. Imediatamente, lancei a mão nervoso e pedi parada mais uma vez. Ele abriu a porta puto, depois de uma freada bruta e alfinetou: “Tá pensando que essa porra é táxi?”.

Lembrei de Alberto Lima contando suas histórias de passageiro do Engenho do Meio, relembrando os motoristas brutos. Ele é da época que se o cabra pedisse parada e demorasse pra descer, o motorista gritava enfurecido: “Tá pensando que essa porra é escorrego, pra descer sentado, seu porra? Tempos que esses condutores dos coletivos reagiam a exploração com a mesma intensidade de gentileza e tinham um estereótipo de gordura flácida, um bigode tingido pela nicotina dos cigarros do intervalo e sempre um dente bem palitado por um “Gina” já roído na cabeça.

Apesar dessa brutalidade está restrita ao tempo passado, ainda hoje é evidente que motorista queima parada pra estudante e idoso, principalmente idoso; que eles não dão Bom dia, etc. Mas isso é um problema que a raiz é bem profunda. Como diria um amigo meu, é culpa do sistema. Mas, mesmo com todos esses problemas do transporte coletivo, eu tenho uma simpatia por eles. Gosto de andar de ônibus, de pensar, de entender sua rota, de ouvir suas conversas, de compreender seus usuários.

Aqui em Recife eu tenho meus ônibus de estimação. O Jardim São Paulo/Abdias de Carvalho é o mais chegado e freqüente, me deixa na porta de casa, mas o Totó quebra um galho depois das farras, naquele Bacurau das 2 da manhã, no cais Santa Rita. O Curado, em sua diversa numeração (1, 2, 4), me acompanha nas horas de pico. Nas pressas do cotidiano, um Curado cai bem.

Mas quando pego, por exemplo, um Alto Santa Isabel, Casa Amarela/Rosa e Silva, a porca torce o rabo, porque me perco naquelas ruas idênticas da Zona Norte do Recife. Nunca sei dizer quem é Av. 17 de Agosto e Estrada do encanamento. Confundo sempre Jaqueira com Praça de Casa Forte. O que me salva é a Rosa e Silva de braços dados com a Rui Barbosa, duas figuras que me conduzem naquela área.

Em Olinda eu tenho até meus truques, mas não sei se Caenga é um Bairro ou uma referência para uma espécie de Circular de Olinda. Ele vai pra todos os lugares. Sempre tem um Caenga/ Algum Lugar. Se com ônibus me confundo, imagine com paradas. Em Boa Viagem mesmo, sempre desço uma parada antes ou uma depois. Quando tinha as plaquinhas que enumeram as paradas eu sabia que a 12 era do Shopping, que a 9 era a da Imobiliária quando, por descuido, eu deixava vencer o boleto do aluguel e ia lá pagar. Mas, ultimamente, a coisa tá feia. Sempre tenho que recorrer ao cobrador, pra me livrar de um vexame ou de uma caminhada desnecessária.

Nunca fui pro jogo do Santa de ônibus. Sempre aparecia uma carona, uma galera pra rachar o táxi, mas eu fico espiando quais coletivos se encaminham pra aquelas bandas do Arruda, da Rodinha, Cajueiro, mas nunca utilizei. No Festival de Inverno de Garanhus, por uma desventura da vida, eu e Lia pegamos uma casa com os amigos um tanto longe do foco da festa. Se não fosse o Mundaú, a gente tava lascado. Era um ônibus do grande, conservador, se pagava em dinheiro e o cobrador ficava na porta de trás, tipo de ônibus que preserva suas origens. Tinha também o modelo Geladinho, que era guiado por um motorista gente fina. Na volta da farra, ele deixava a gente em frente de casa, aos agradecimentos completamente embriagados.

Eu já ia esquecendo do meu pimpolho CDU/TORRÕES-VIA SAN MARTIN. Esse é tipo paciência. Me leva e traz todos os dias pra UFPE. Demora 30 minutos pra passar, mas, em contrapartida, vou sentadinho lendo minhas fichas, meus livros, pensando na vida, levando uns ventos na fuça. Tem ônibus que nasceu pra você pensar na vida. O CDU/TORRÕES é um deles.

Tem também aqueles pra você colocar conversa em dia com um amigo do exterior – Alô, Carol, cunhada querida. Quando tu chegar a gente bate uma prosa no Rio Doce/ CDU. Esse aí você briga, chora, faz as pazes, volta a brigar, fala da vida dos outros, do problema do Brasil, da estética do romance, desce pro debate sobre catingas de peido, nomes de bunda, depois reflete sobre as letras de Chico, faz silêncio, dorme, acorda e ele ainda tá na Encruzilhada, o que corresponde ao meio do caminho entre a UFPE e Olinda. O percurso é tão longo e demorado que, em final de ano, os freqüentadores assíduos fazem um amigo secreto, com direito a bolo, guaraná e participação do motorista e cobrador.

Eu fico com pena dos amigos da Rural, da galera da UFPE que tem que enfrentar um Barro/Macaxeira, tipo de linha que detesta solidão. Eu só vejo o ônibus abarrotado de gente, uma loucura. Já vi nego sair com a cara amassada na porta. É uma Odisséia. Mas andar de ônibus é assim mesmo: é dureza, sacrifício na certa, mas tem suas coisas positivas, isso tem.

Pra todo mundo que anda de busão e paga essa tarifa cara. Vamos lutar para baixar o preço!!!

Por Afonso Bezerra.