É uma constante do cinema mundial tratar a Guerra apenas pelo seu modo eventual e prático. Violência, velocidade, mortes, invenções e tecnologias são retratadas na grande tela com certo ar de heroísmo, sucesso e avanço. Mas que viabilidade é positiva se o advento de certos objetos, realidades e mentalidades de uma época transposta de uma Geurra depende exclusivamente da morte, do sangue, desse furto à vida propositado pela ganância?
O cinema italiano, representado pela figura do diretor Giuseppe Tornattore, apresenta uma nova receita em tratar da guerra. Em vez das balas, o amor. No lugar da velocidade, a paciência de um lugarejo interiorano da Itália. Em substituição aos aviões pomposos, a sétima arte em sua fase embrionária, lá pelas embrenhas dos anos 1930. No lugar das estratégias, o drama das vidas sofridas vítimas da guerra, mas que nunca é o foco dos holofotes.
O drama das personagens do filme Cinema Paradiso (1988) se entrelaçam com a Segunda Guerra sem apresentar essa visão densa e massacrante de violência, muitos menos descritiva demais, como se servisse aos estudos acadêmicos. Não. Eles apostam na naturalidade, no sentimentalismo, na magistral postura dos anônimos dentro da História. O que teria a contar de história um pobre projetista de cinema numa Itália dos anos 30 e 40?
É nessa investida que o cinema italiano se demonstra num jogo complexo de sentimentalismo controvertido. Parte da ousadia de acreditar que, em meio a tanto sangue, ganância e egoísmo, haveria uma história tão linda de amizade, amor e esperança. Durante muito tempo, acreditou-se que História era o diário de uma guerra. Drummond, certa vez, quem sabe tomado por um descuido, afirmou que toda história é remorso. Mas o poeta, como não poderia deixar de ser, depende muito de que lado se observa.
Toda História é remorso, é dor, mas também é riso, alegria, entusiasmo, fracasso, vingança. Em síntese, História é toda essa miríade de idéias e sentimentos, posturas e aconchegos. Os verbos que tecem a história são conjugados conforme a temperatura do sujeito. O sentimentalismo é uma forma.