quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Onde a globalização é figurante

A verdade é que toda vez que começo um novo texto, caio no poço da cidade grande em que moro. Falar sobre o quê? Sempre as mesmas caras, sempre os mesmos itinerários: carros carros carros carros carros pessoas pessoas carros acidentes mortes carros carros carros. É preciso dar um basta nessa condição de metrópole. Vamos deixar a metrópole e suas mesmices para os que, como eu antes de fechar a janela e ouvir o silêncio, ainda não descobriram o abismo em que estão.

Uma vez, fiz uma viagem. Na verdade, um passeio, já que meu destino era uma cidadezinha chamada Lagoa do Carro (nome bem irônico, aliás), no interior de Pernambuco, a pouco mais de uma hora de Recife. Ao chegar na cidade, encontramos um senhor de idade, cujo nome não me lembro, dono do terreno ao qual estávamos indo. Aparentava ter, no mínimo, 70 anos. E enquanto nós, meros mortais submissos à tecnologia, estávamos enfiados dentro de um carro com ar-condicionado para fugir do sol das onze horas, o homem foi até o terreno de uma forma simples e rápida: a cavalo.

O lugar era longe, a estrada de terra batida era desigual, o homem a cavalo estava muito à nossa frente. Eram várias porteiras de madeira – ele abria e fechava cada uma delas sem nem descer do bicho – e muitas montanhas, mas conseguimos chegar ainda a carro (Amém. Ar condicionado!) na casinha de pau-a-pique onde o senhor morava. A composição da casa era o mais simples possível: um banheiro, uma cozinha, um quarto, uma sala. Um fogão, uma geladeira, uma cama, uma televisão e um som. Sofá? Quem precisa de sofá quando existem redes? Supermercado? A alimentação saudável estava toda lá fora, nas plantações. Água encanada? Havia a nascente de um rio a poucos metros da casa.

Me espantou o fato de que a artificialidade de um mundo tão tecnológico, tão científico, tão encolhido pela globalização, por assim dizer, não afetou aquelas pessoas. É uma vida tão simples, tão tranqüila. O conforto deixa a desejar, obviamente, levando em conta o padrão de vida da cidade grande. Mas a simplicidade – ou mais: a felicidade – estampada nos olhos daquele povo é conforto de sobra pro coração.

(Penélope Araújo)

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