Antes de qualquer coisa, gostaria de informar que não tenho filhos, mas pretendo tê-los. Acho linda essa experiência, apesar de todos os dramas que dela fazem parte. A criação de um ser humano buscando sempre ensiná-lo a liberdade, os conceitos, a vida em sua visão ampla (apesar de ser no seu humilde ponto de vista) é uma sensação mágica.
Sempre que penso sobre alguma coisa indelicada, me pergunto como explicaria aos meus filhos. Essa relação paterna de ser a máxima referência é um exercício contínuo sobre a formação de seu próprio caráter, afinal de contas, outra pessoa tomará essas posições como uma verdade absoluta, nos levará a sério e, por eles, vale a pena pensar um pouco mais.
O tema da vez é o medo. Me cansei das definições do Datena sobre o que seria o medo. Elas são sensacionalistas demais. O significado de medo dado pelos meus colunistas preferidos das minhas revistas preferidas viajou demais na retórica, não gostei. Todos são categóricos, inflamados, apressados e sempre buscam um herói que supera a idéia de medo. E para formar esse padrão heróico anti-medo, nos ensinam uma fórmula infalível de como se livrar das agruras modernas. Nada. Sinto-me preso com tantos códigos: de conduta, eleitoral, civil, condominial... Chega!
Foi um francês quem me trouxe um esclarecimento sobre o medo. Ele, simplesmente, existe. Causa-nos angústia, respirações aceleradas, o pensamento pifa e a racionalidade (tão defendida ultimamente) se esfarela como a farofa que sobrou do almoço. Jean Delumeau já me disse: todas as sociedades tiveram medo e, paralelamente, construíram seus heróis. Mais adiante, ele complementa dizendo que há uma diferença entre medo e covardia.
Ser medroso é um ato, por si só, heróico. É reconhecer suas limitações, ser verdadeiro consigo mesmo. O medo nos ensina a não criar personagens sobre a nossa personalidade tão frágil. Mas a condição humana tem dessas coisas: gosta de impor certas aptidões, de nos enlouquecer. E a nossa sociedade que Duby chamou de espetacular vai querer nos apresentar como o resistente ao medo e conhecedor puro de todos os dramas, ou seja, nos faz covardes para nós mesmos. Porque covardia é isso: fingir-se a si mesmo, tropeçar em suas verdades ao tentar construir mentiras para aparentar-se melhor ao mundo lá fora.
Numa era movida ao terrorismo, apresentar-se imune ao medo é um sinal de boa relação com os próprios dramas. Entretanto, o que gostaria de passar ao meu filho é o seguinte: esqueça os outros e sinta o seu medo e faça com que ele seja reconhecido e respeitado.
Não ultrapasse seus limites, não queira sentir seu superego. Encare o inusitado, faça o simples e preze por sua autonomia. No fundo, você verá que ela é muito cara. Muito. A ponto de não ser mensurada financeiramente. E quero contar mais ainda ao meu filho: que tenho medo de sapo, de viajar de avião, de não achar o caminho certo nas ruas do Recife e ver meu filho perdido por causa do medo do medo que ele tem.
Por Afonso Bezerra.
pois é, mago. o medo é inerente á todo animal, e o homem com um dos mais frágeis não está nem um pouco privado dele, felizmente hahaha. curti muito seu texto, quanto a não querer sentir seu superego, eu discordo um pouco, acho que se privar no campo do Id, acaba cortando um pouco a possibilidade de viver, acho que deve haver uma variação de frêquência entre o superego e o id, e que dessa maneira possamos construir nosso ego. abraço, afonso.
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