Assim como na literatura, a vida tem suas dualidades. Entre a ficção e a realidade, construímos uma frágil idéia de viver. Diariamente convivemos desconfiadamente entre a imaginação e a angustiante realidade. Do lado imaginário, descansa a formosa política, lúdica e retórica, sem cansaço e repleta de sonhos. Do outro, padece a realidade. A pressão, a ardente ausência de esperança e o imperativo mundo real.
Essa realidade presente é construída diariamente nas pequenas atitudes do cotidiano. De um simples ver Televisão ao enfadonho percurso casa-trabalho, enjaulado nos péssimos transportes coletivos e públicos, são as evidentes marcas de um mundo real nunca interligado ao imaginário político porque, no fundo, não é coerente com a prática de ambos os lados.
A política é a dama formosa dos dias raros. Aparece de vez em quando, tem um jeito manso, adequado, nunca com pressa. Tem na ponta da língua as palavras certas para acalentar um coração mordido, dolorido e perdido. A política é a contraditória arte da possibilidade do impossível.
A Realidade é o desalento, é o ao vivo e inesperado. A dor crua e nua. É a vida seca num plural Graciliano, rachada e grande, desesperada e apressada. É aquela que se reveste de impureza por desconhecer o puro do viver. Realidade é o atropelo de si mesmo daquele que não se conhece.
O que espanta a relação entre esse dois pólos é que ambos dependem um do outro. Aristóteles, filósofo da Grécia, já escrevia um recado para esse nosso mundo: “o homem é um animal político”. Mas que homem é esse que tem política como essência de si? De um lado, aquele do mundo real, não reconhece a política como solução. Do outro, a aquele da contemplação, a política é apenas um recurso de promoção pessoal.
Ela tornou-se, exclusivamente, um instrumento para a construção das positivistas biografias excepcionais, que regurgitam orações do tipo “um grande homem, que vai deixar uma lacuna impreenchível na vida desse país”. País sem habitantes, só pode. Porque quem faz esse país continental, não se reconhece na política. Ver-se à margem, escondido, anulado. Aliás, nem tanto. O homem real tem sua função na política: é um grande adjetivo para os auto-consagrados grandes homens. Enquanto isso, nem sabem que triunfam nas linhas dos livros biográficos. Apenas procuram uma saída, um escape em sua dura vida real. Afinal, a política, o que é a política? Um momento festivo e emocionante de discussões superficiais? Um processo eleitoral?
Joaquim Nabuco disse, em “Minha formação”, que fazia política de P maiúsculo. É uma possível resposta, mas no desandar das carruagens da Dilma, a eventual composição do seu ministério, tumultuada por natureza, nos força a definir que Política é a prática da solidão. Não se pensam projetos e idéias, e sim interesses particulares, construção de melhorias de vidas, de grandes biografias e possibilidade de novos cargos. Uma política que esqueceu seu conteúdo, perdeu-se da ética e largou os princípios. Uma política minúscula e quase sem o P. Política que é cega para o real.
Enquanto ela se banha nas deletérias sujeiras de sua essência e esquecemos-nos da dureza real, aprendemos a chamar isso tudo de realidade, como cantaria Caetano. Basta abrir os jornais e entender como a política cada vez mais não se entende. A política não cabe no vernáculo, não tem tradução e só tem um sentido: a solidão, e nunca a solidariedade.
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