terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Minha odisséia nos ônibus do Recife.

Andar de ônibus no Recife é uma Odisséia, é um plural de problema. A cidade é mal sinalizada, os ônibus são péssimos e a passagem cara pacas(2 Reais o Vale A, absurdo). os motoristas, em geral, são malcriados. Olhe, só andando!

Teve uma vez que, por motivos de leseira, eu demorei pra chegar até a porta e o motorista arrancou o carro achando que eu não iria subir. Imediatamente, lancei a mão nervoso e pedi parada mais uma vez. Ele abriu a porta puto, depois de uma freada bruta e alfinetou: “Tá pensando que essa porra é táxi?”.

Lembrei de Alberto Lima contando suas histórias de passageiro do Engenho do Meio, relembrando os motoristas brutos. Ele é da época que se o cabra pedisse parada e demorasse pra descer, o motorista gritava enfurecido: “Tá pensando que essa porra é escorrego, pra descer sentado, seu porra? Tempos que esses condutores dos coletivos reagiam a exploração com a mesma intensidade de gentileza e tinham um estereótipo de gordura flácida, um bigode tingido pela nicotina dos cigarros do intervalo e sempre um dente bem palitado por um “Gina” já roído na cabeça.

Apesar dessa brutalidade está restrita ao tempo passado, ainda hoje é evidente que motorista queima parada pra estudante e idoso, principalmente idoso; que eles não dão Bom dia, etc. Mas isso é um problema que a raiz é bem profunda. Como diria um amigo meu, é culpa do sistema. Mas, mesmo com todos esses problemas do transporte coletivo, eu tenho uma simpatia por eles. Gosto de andar de ônibus, de pensar, de entender sua rota, de ouvir suas conversas, de compreender seus usuários.

Aqui em Recife eu tenho meus ônibus de estimação. O Jardim São Paulo/Abdias de Carvalho é o mais chegado e freqüente, me deixa na porta de casa, mas o Totó quebra um galho depois das farras, naquele Bacurau das 2 da manhã, no cais Santa Rita. O Curado, em sua diversa numeração (1, 2, 4), me acompanha nas horas de pico. Nas pressas do cotidiano, um Curado cai bem.

Mas quando pego, por exemplo, um Alto Santa Isabel, Casa Amarela/Rosa e Silva, a porca torce o rabo, porque me perco naquelas ruas idênticas da Zona Norte do Recife. Nunca sei dizer quem é Av. 17 de Agosto e Estrada do encanamento. Confundo sempre Jaqueira com Praça de Casa Forte. O que me salva é a Rosa e Silva de braços dados com a Rui Barbosa, duas figuras que me conduzem naquela área.

Em Olinda eu tenho até meus truques, mas não sei se Caenga é um Bairro ou uma referência para uma espécie de Circular de Olinda. Ele vai pra todos os lugares. Sempre tem um Caenga/ Algum Lugar. Se com ônibus me confundo, imagine com paradas. Em Boa Viagem mesmo, sempre desço uma parada antes ou uma depois. Quando tinha as plaquinhas que enumeram as paradas eu sabia que a 12 era do Shopping, que a 9 era a da Imobiliária quando, por descuido, eu deixava vencer o boleto do aluguel e ia lá pagar. Mas, ultimamente, a coisa tá feia. Sempre tenho que recorrer ao cobrador, pra me livrar de um vexame ou de uma caminhada desnecessária.

Nunca fui pro jogo do Santa de ônibus. Sempre aparecia uma carona, uma galera pra rachar o táxi, mas eu fico espiando quais coletivos se encaminham pra aquelas bandas do Arruda, da Rodinha, Cajueiro, mas nunca utilizei. No Festival de Inverno de Garanhus, por uma desventura da vida, eu e Lia pegamos uma casa com os amigos um tanto longe do foco da festa. Se não fosse o Mundaú, a gente tava lascado. Era um ônibus do grande, conservador, se pagava em dinheiro e o cobrador ficava na porta de trás, tipo de ônibus que preserva suas origens. Tinha também o modelo Geladinho, que era guiado por um motorista gente fina. Na volta da farra, ele deixava a gente em frente de casa, aos agradecimentos completamente embriagados.

Eu já ia esquecendo do meu pimpolho CDU/TORRÕES-VIA SAN MARTIN. Esse é tipo paciência. Me leva e traz todos os dias pra UFPE. Demora 30 minutos pra passar, mas, em contrapartida, vou sentadinho lendo minhas fichas, meus livros, pensando na vida, levando uns ventos na fuça. Tem ônibus que nasceu pra você pensar na vida. O CDU/TORRÕES é um deles.

Tem também aqueles pra você colocar conversa em dia com um amigo do exterior – Alô, Carol, cunhada querida. Quando tu chegar a gente bate uma prosa no Rio Doce/ CDU. Esse aí você briga, chora, faz as pazes, volta a brigar, fala da vida dos outros, do problema do Brasil, da estética do romance, desce pro debate sobre catingas de peido, nomes de bunda, depois reflete sobre as letras de Chico, faz silêncio, dorme, acorda e ele ainda tá na Encruzilhada, o que corresponde ao meio do caminho entre a UFPE e Olinda. O percurso é tão longo e demorado que, em final de ano, os freqüentadores assíduos fazem um amigo secreto, com direito a bolo, guaraná e participação do motorista e cobrador.

Eu fico com pena dos amigos da Rural, da galera da UFPE que tem que enfrentar um Barro/Macaxeira, tipo de linha que detesta solidão. Eu só vejo o ônibus abarrotado de gente, uma loucura. Já vi nego sair com a cara amassada na porta. É uma Odisséia. Mas andar de ônibus é assim mesmo: é dureza, sacrifício na certa, mas tem suas coisas positivas, isso tem.

Pra todo mundo que anda de busão e paga essa tarifa cara. Vamos lutar para baixar o preço!!!

Por Afonso Bezerra.

4 comentários:

  1. Me identifiquei muito com o texto kkkkk
    "Tem ônibus que nasceu pra você pensar na vida" - pura verdade.

    Abraços

    Thâmara

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  2. Já peguei Barro/Macaxeira vazio, só pra constar!

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  3. Só pra constar, suspeito que vossa senhoria acima resida próximo ao terminal. Ou não?

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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