domingo, 9 de janeiro de 2011

A política é a prática da solidão.

Assim como na literatura, a vida tem suas dualidades. Entre a ficção e a realidade, construímos uma frágil idéia de viver. Diariamente convivemos desconfiadamente entre a imaginação e a angustiante realidade. Do lado imaginário, descansa a formosa política, lúdica e retórica, sem cansaço e repleta de sonhos. Do outro, padece a realidade. A pressão, a ardente ausência de esperança e o imperativo mundo real.

Essa realidade presente é construída diariamente nas pequenas atitudes do cotidiano. De um simples ver Televisão ao enfadonho percurso casa-trabalho, enjaulado nos péssimos transportes coletivos e públicos, são as evidentes marcas de um mundo real nunca interligado ao imaginário político porque, no fundo, não é coerente com a prática de ambos os lados.

A política é a dama formosa dos dias raros. Aparece de vez em quando, tem um jeito manso, adequado, nunca com pressa. Tem na ponta da língua as palavras certas para acalentar um coração mordido, dolorido e perdido. A política é a contraditória arte da possibilidade do impossível.

A Realidade é o desalento, é o ao vivo e inesperado. A dor crua e nua. É a vida seca num plural Graciliano, rachada e grande, desesperada e apressada. É aquela que se reveste de impureza por desconhecer o puro do viver. Realidade é o atropelo de si mesmo daquele que não se conhece.

O que espanta a relação entre esse dois pólos é que ambos dependem um do outro. Aristóteles, filósofo da Grécia, já escrevia um recado para esse nosso mundo: “o homem é um animal político”. Mas que homem é esse que tem política como essência de si? De um lado, aquele do mundo real, não reconhece a política como solução. Do outro, a aquele da contemplação, a política é apenas um recurso de promoção pessoal.

Ela tornou-se, exclusivamente, um instrumento para a construção das positivistas biografias excepcionais, que regurgitam orações do tipo “um grande homem, que vai deixar uma lacuna impreenchível na vida desse país”. País sem habitantes, só pode. Porque quem faz esse país continental, não se reconhece na política. Ver-se à margem, escondido, anulado. Aliás, nem tanto. O homem real tem sua função na política: é um grande adjetivo para os auto-consagrados grandes homens. Enquanto isso, nem sabem que triunfam nas linhas dos livros biográficos. Apenas procuram uma saída, um escape em sua dura vida real. Afinal, a política, o que é a política? Um momento festivo e emocionante de discussões superficiais? Um processo eleitoral?

Joaquim Nabuco disse, em “Minha formação”, que fazia política de P maiúsculo. É uma possível resposta, mas no desandar das carruagens da Dilma, a eventual composição do seu ministério, tumultuada por natureza, nos força a definir que Política é a prática da solidão. Não se pensam projetos e idéias, e sim interesses particulares, construção de melhorias de vidas, de grandes biografias e possibilidade de novos cargos. Uma política que esqueceu seu conteúdo, perdeu-se da ética e largou os princípios. Uma política minúscula e quase sem o P. Política que é cega para o real.

Enquanto ela se banha nas deletérias sujeiras de sua essência e esquecemos-nos da dureza real, aprendemos a chamar isso tudo de realidade, como cantaria Caetano. Basta abrir os jornais e entender como a política cada vez mais não se entende. A política não cabe no vernáculo, não tem tradução e só tem um sentido: a solidão, e nunca a solidariedade.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Sentimentos controvertidos

É uma constante do cinema mundial tratar a Guerra apenas pelo seu modo eventual e prático. Violência, velocidade, mortes, invenções e tecnologias são retratadas na grande tela com certo ar de heroísmo, sucesso e avanço. Mas que viabilidade é positiva se o advento de certos objetos, realidades e mentalidades de uma época transposta de uma Geurra depende exclusivamente da morte, do sangue, desse furto à vida propositado pela ganância?

O cinema italiano, representado pela figura do diretor Giuseppe Tornattore, apresenta uma nova receita em tratar da guerra. Em vez das balas, o amor. No lugar da velocidade, a paciência de um lugarejo interiorano da Itália. Em substituição aos aviões pomposos, a sétima arte em sua fase embrionária, lá pelas embrenhas dos anos 1930. No lugar das estratégias, o drama das vidas sofridas vítimas da guerra, mas que nunca é o foco dos holofotes.

O drama das personagens do filme Cinema Paradiso (1988) se entrelaçam com a Segunda Guerra sem apresentar essa visão densa e massacrante de violência, muitos menos descritiva demais, como se servisse aos estudos acadêmicos. Não. Eles apostam na naturalidade, no sentimentalismo, na magistral postura dos anônimos dentro da História. O que teria a contar de história um pobre projetista de cinema numa Itália dos anos 30 e 40?

É nessa investida que o cinema italiano se demonstra num jogo complexo de sentimentalismo controvertido. Parte da ousadia de acreditar que, em meio a tanto sangue, ganância e egoísmo, haveria uma história tão linda de amizade, amor e esperança. Durante muito tempo, acreditou-se que História era o diário de uma guerra. Drummond, certa vez, quem sabe tomado por um descuido, afirmou que toda história é remorso. Mas o poeta, como não poderia deixar de ser, depende muito de que lado se observa.

Toda História é remorso, é dor, mas também é riso, alegria, entusiasmo, fracasso, vingança. Em síntese, História é toda essa miríade de idéias e sentimentos, posturas e aconchegos. Os verbos que tecem a história são conjugados conforme a temperatura do sujeito. O sentimentalismo é uma forma.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Batuque histórico do samba.

Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, já dizia o bom baiano Dorival Caymmi. A música já ironiza à história de seu próprio ritmo. Se ele hoje é um queridinho do Brasil e está na ponta do pé de qualquer turista, muito distante está de suas origens. O Brasil, hoje, é uma grande grife para o mundo. Não é difícil encontrar nossas cores estampadas no cotidiano de franceses, norte-americanos e ingleses, sem esconder um certo orgulho em vestir nossa bandeira. O salto de nossa economia elevou a cultura do exótico ao necessário, numa hipótese sacana de que, para os turistas, conhecer o Brasil virou sinônimo de se tornar um intelectual sem preconceitos. O samba é nosso cartão de visita, mas nem sempre foi tão doce assim ouvir Noel Rosa, Cartola ou Pixinguinha. Para muitos, esse samba tinha lá sua ponta de imodesto.

Suas origens datam da época da miscigenação entre negros africanos e portugueses, no período da colonização européia. Mas sua consagração como um ritmo foi um processo lento e iniciado nos anos 20 do século passado. Muito peculiar à cultura afro no Brasil, o samba era muito executado em rodas de candomblé, no centro carioca. Essas rodas eram protagonizadas por personagens descendentes de ex-escravos, que foram recém-libertos no final do século XIX. Habitantes negros, festas agitadas e barulhos de tambores não tinham nada a ver com a idéia de cultura civilizada defendida naquela época. A Belle Époque francesa imprimia um novo jeito de se portar.
Com a República recém-proclamada, havia a necessidade do Rio de Janeiro se portar como uma capital digna de uma refinada cultura, habitada por gente da mais requintada postura. Paris surgia como um grande espelho para a reforma na cidade fluminense.

Em 1905, durante o Governo de Rodrigues Alves, vieram abaixo as rodas de samba instaladas nos cortiços e casebres antigos do Centro do Rio de Janeiro, onde habitavam as famílias humildes, pobres e renegadas pelo Estado brasileiro, numa espécie de Reforma Social conjunta, que englobava desde os sistemas habitacionais até a política de valorização do café, passando pelo sistema de saúde. O progresso excluiu toda riqueza de história e arquitetura da capital à época, por um preço baixíssimo de se igualar à uma civilização que tem sua importância questionada. Era a cultura de um povo sendo afogada pelo interesse de se adequar a um status.

Além das habitações derrubadas, o samba, típica expressão cultural dessa classe de excluídos, foi censurado e acusado de ruído e música de péssima qualidade que promove a desordem. Logo, para a elite brasileira dos anos 20 e 30, quem gostava de samba, bom sujeito não era.

A polícia ficou encarregada de desafinar a nota de um bom sambista que ousasse entoar suas cantigas. Cada vez mais o samba ficou recluso ao morro, nova região dos antigos moradores do centro carioca, bem distante da sofisticação. Como se fosse uma forma de resposta, os sambistas começaram a se organizar, fundar escolas, dar cores próprias às suas comunidades que timidamente nasciam. Vila Isabel, Mangueira, Estácio de Sá, Oswaldo Cruz, cada uma tinha seu bamba, seus hinos, bandeiras e, a partir de agora, sua história.

Afinal, o que fez desse gênero tão perverso à ordem brasileira um símbolo nacional? A necessidade insaciável de encontrar uma identidade. Em 1922, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, o sociólogo Gilberto Freyre, os artistas e literatos do Modernismo brasileiro, preocupavam-se com que roupa o Brasil ia se vestir para comemorar os 100 anos de independência. Quem são nossos heróis? Qual é a nossa genuína arte? Quem contou a nossa história? E quem nos fez brasileiro?

Diante dessa ausência, nasceu a necessidade de proclamar o samba como ritmo nacional, porque ele estava entranhado daquilo que ergueu esse país. Trazia o batuque, a irreverência do negro e, de fato, a realidade de quem continuava a erguer esse país e ainda ocupava o posto dos oprimidos: o povo das ruas, dos morros. O rebolado das moças, o acelerado gingado do violão e a poesia que reverencia a vida como ela é (numa epifania nelsonrodriguiana) representam a sensação de uma verdade nacional.

Depois que sentimos a necessidade de se ter um ritmo só nosso, quem gosta de samba, com certeza um bom sujeito é. Mas será que ainda temos o reconhecimento de nossa identidade? Será que ainda preservamos a nossa história, nosso patrimônio? Somente sambando para entender.